2. OLIMPADAS 2012

1. TECNOLOGIA  NATAO  AGORA  NO PEITO E NO BRAO
2. ENGENHARIA  FEITA PARA RECORDES
3. VELOCIDADE  100 METROS  COMO VENCER SEM CORRER MAIS RPIDO
4. FISIOLOGIA  MARATONA  O ELIXIR QUENIANO CHAMA-SE HBITO
5. TREINAMENTO  SALTO COM VARA  UM BAL COMPLEXO
6. BIOMECNICA  SALTO EM DISTNCIA  A ARTE DE GANHAR CENTMETROS
7. ADAPTAO  BASQUETE  AJUDA ESTRANGEIRA
8. DESEMPENHO  A DISPUTA DE GNEROS
9. REGULAMENTO  O DOPING LEGAL
10. SADE  OS JOGOS SEDENTRIOS
11. INEDITISMO  QUEM FREIA ESSAS PRTESES?
12. SADE  UM DESAFIO PARTICULAR
13. FSICA  O FUTEBOL MODERNIZADO
14. HISTRIA  UM CONTO DE DUAS CIDADES
15. MEMRIA  OS HERIS  A ELITE DOURADA DO BRASIL
16. ARQUITETURA  A BELEZA POSSVEL PARA DIAS DIFCEIS
17. ENTREVISTA  UM LEGADO EXTRAORDINRIO

1. TECNOLOGIA  NATAO  AGORA  NO PEITO E NO BRAO
A gerao de velocistas como Cesar Cielo fez marcas espetaculares com a ajuda da cincia dos uniformes  em 2012, eles querem provar que a segunda pele  mero detalhe.
LIGIA CARRIEL

     O brasileiro Cesar Cielo, medalhista de ouro dos 50 metros e bronze nos 100 metros nado livre de Pequim.  o homem mais rpido do mundo nas piscinas. Em 2009, ele bateu o recorde mundial dos 100 metros (tempo de 46s91) e dos 50 metros (20s91). As marcas se mantm at hoje na liderana, mas as condies mudaram. Quando entrar na piscina em Londres, Cielo no ter a ajuda dos supermais  os trajes tecnolgicos foram banidos pela Federao Internacional de Natao em janeiro de 2010. A segunda pele permitia que o atleta flutuasse com mais facilidade ao aumentar a compresso da musculatura e diminuir a resistncia do corpo  gua. Na poca, vrios especialistas apontaram que seria muito difcil ver os atletas superarem os 91 recordes mundiais obtidos apenas com o modelo LZR Racer, a Ferrari dos supermais.
     De fato, o banimento da ajuda tecnolgica estancou a produo desenfreada de recordes. At agora  dois anos e meio depois , somente duas marcas foram ultrapassadas: a dos 1500 metros nado livre masculino e a dos 200 metros medley masculino. Mas a proibio tambm teve o efeito positivo de separar o joio do trigo na elite da natao. Somente os superatletas como Cielo tm conseguido trocar o avano da tecnologia dos tecidos sintticos pelo desempenho nu e cru, no peito e no brao. Os resultados desses campees comeam a se aproximar do cronmetro da era dos mais.  uma bonita parbola para a natao, o retorno ao tempo em que um campeo como o bigodudo americano Mark Spitz, sete medalhas de ouro em Munique (1972), se vestia com uma singela sunga. Hoje, os nadadores se depilam, recurso que subtrai alguns milsimos de segundo do resultado final. Veremos em Londres, portanto, nadadores depilados mas sem a veste a cobrir todo o corpo.  fenmeno que tambm ocorre, naturalmente, entre as mulheres.
     Cielo tem um imenso desafio na Olimpada que representa o incio de uma nova era ou o retorno ao tempo antigo. Com o apoio do analista tcnico da seleo brasileira de natao, o biomecnico Paulo Cezar Marinho, o atleta intensificou um treinamento inovador, que j vinha fazendo desde 2004, adaptado das tcnicas do russo Yuri Verkhoshansky, que se tornou conhecido nos anos 80 ao desenvolver um mtodo de treinos baseado em saltos. Paulo Cezar criou um sistema de periodizao em blocos especfico para a natao. Esse mtodo  dividido em trs microciclos e permite que o atleta consiga atingir trs picos de excelncia em competio durante o ano. No perodo preparatrio, a nfase  nos treinos de fora, tanto dentro quanto fora dgua. Na fase pr-competio, o condicionamento fsico  mantido, mas o foco recai sobre a velocidade de deslocamento. A poucos dias da prova, o objetivo  simular a situao de competio nos treinos, diz Paulo Cezar.
     O trabalho de aprimoramento tambm tem uma fase ps-competio. Munida de cmeras e equipamentos de edio de vdeo, a equipe analisa os treinos e competies dos brasileiros e os compara com os de seus adversrios. 
     Paulo Cezar dividiu os 50 metros livres em cinco segmentos: sada, golfinhada, breakout, nado limpo e finalizao. A partir dessa anlise, a equipe descobriu que o campeo olmpico precisava lapidar o breakout, a transio entre a golfinhada submersa e o nado crawl. A sada do bloco at o incio do nado crawl
chega a representar at 20% do percurso da prova e Cielo poderia perder centsimos preciosos por falta de exploso. No caso de Bruno Fratus, atleta brasileiro que tambm participou do trabalho de anlise, o principal problema eram os primeiros metros aps a sada do bloco. Com um treinamento especifico, Fratus, que depois da largada dava as primeiras braadas a 8,68 metros da borda da piscina no Trofu Maria Lenk de 2011, passou a faz-lo a 9,27 metros na mesma competio neste ano. Nunca treinei to pouco meus atletas, mas os resultados melhoraram porque o treino  feito com mais cincia, afirma Arilson Silva, tcnico de Bruno Fratus. Normalmente, os atletas nadam de 30 a 35 quilmetros por semana no perodo final de preparao antes de grandes competies. Cielo e Fratus nadam um volume bem mais baixo, entre 15 e 20 quilmetros semanais.
     Outra estratgia adotada pela equipe  mexer com a fisiologia do atleta. Os trajes permitiam uma maior flutuabilidade, o que facilitava a progresso na gua. O campeo olmpico passou por uma dieta especial para alterar a composio de gordura no corpo e chegar a uma condio natural de flutuabiidade semelhante  proporcionada pelos trajes. Quando conquistou o ouro em Pequim, Cielo tinha 13% de gordura corporal. Para a Olimpada de Londres, o mdico Gustavo Magliocca estima que ele esteja com uma composio entre 9% e 10%. Alm disso, nos ltimos dois anos, o atleta ganhou 2 quilos de massa muscular o que significa mais fora.
     A preparao deu resultado. Nesta temporada, Cielo fez o melhor tempo dos 50 metros com 21,38 segundos, bem prximo dos 21,30 segundos que lhe deram o ouro em Pequim. Em Londres, ele deve fazer algo em torno de 20,90 segundos e 21,03 segundos, crava Alberto Silva, tcnico do nadador. Falta, evidentemente, combinar com os adversrios. O prprio Fratus  uma ameaa, dono da quarta melhor marca de 2012. O americano Cullen Jones  outro na cola. Com 21,59 segundos, fez o segundo melhor tempo do ano. Nos 100 metros, a grande ameaa  o australiano James Magnussen, 21 anos. Ele tem o melhor tempo ps-banimento, com 47,10 segundos. Cielo no conseguiu ficar abaixo dos 47,84 segundos. No ser fcil voltar de Londres com dois ouros.

MARK SPITZ, 1972 - O americano foi o grande campeo de um tempo em que os nadadores no se depilavam. Suas sete medalhas de ouro em uma nica Olimpada s foram superadas por Michael Phelps em Pequim 2008.

A DURA VIDA PS-SUPERMAI
A partir de 2010, os nadadores foram proibidos de usar os modelos de roupas tecnolgicas, que melhoravam as marcas. Os tempos, desde ento, pioraram.

50 metros nado livre
RECORDE MUNDIAL (com mai): Cesar Cielo (BRA) 20s91
MELHOR MARCA DO RECORDISTA (sem mai): 21s38
MELHOR MARCA MUNDIAL (sem mai): Fred Bousquet (FRA) 21s36 (Bousquet no se classificou para a Olimpada de Londres)

100 metros nado livre
RECORDE MUNDIAL (com mai): Cesar Cielo (BRA) 46s91
MELHOR MARCA DO RECORDISTA (sem mai): 47s84
MELHOR MARCA MUNDIAL (sem mai): James Magnussen (AUS) 47s10

200 metros nado peito
RECORDE MUNDIAL (com mai): Christian Sprenger (AUS) 2m07s31
MELHOR MARCA DO RECORDISTA (sem mai): 2m11s44
MELHOR MARCA MUNDIAL (sem mai): Kosuke Hitajima (JAP) 2m08s00

400 metros medley
RECORDE MUNDIAL (com mai): Michael Phelps (EUA) 4m03s84
MELHOR MARCA DO RECORDISTA (sem mai): 4m07s89
MELHOR MARCA MUNDIAL (sem mai): Ryan Lochte (EUA) 4m07s06

A CINCIA A FAVOR DE MARCAS MELHORES
Pesquisa da Universidade Estadual da Califrnia avaliou a melhoria no desempenho olmpico proporcionada pelas novidades tecnolgicas

REMOERGMETRO
O aparelho de remo seco permitiu que os atletas intensificassem os treinamentos fora da raia
 Em que edio dos Jogos foi introduzido: 1980
 Ganho em relao  Olimpada anterior: 7,42%
 Melhoria mdia (Mdia feita com os resultados a partir dos Jogos de 1956 ) por Olimpada sem a tecnologia: 1,22%
 Quanto o aumento foi superior  melhoria mdia: 508%

VARA DE FIBRA DE VIDRO
O novo material proporcionou aumento na altura dos saltos por tornar as varas mais flexveis que as anteriores
 Em que edio dos Jogos foi introduzido: 1964
 Ganho em relao  Olimpada anterior: 8,51%
 Melhoria mdia (Mdia feita com os resultados a partir dos Jogos de 1956 ) por Olimpada sem a tecnologia: 1,64%
 Quanto o aumento foi superior  melhoria mdia: 419%

SALTO FOSBURY
De to eficiente, o salto de costas para o sarrafo  introduzido pelo americano Dick Fosbury  foi adotado por todos
 Em que edio dos Jogos foi introduzido: 1968 Homens; 1972 Mulheres
 Ganho em relao  Olimpada anterior: 4,12%
 Melhoria mdia (Mdia feita com os resultados a partir dos Jogos de 1956 ) por Olimpada sem a tecnologia: 2,25%
 Quanto o aumento foi superior  melhoria mdia: 83%

TALHADO PARA NADAR
A ilustrao Homem Vitruviano  o retrato de Leonardo Da Vinci para um corpo ideal, de propores perfeitas. Se tivesse de desenhar um homem feito para ser o mais rpido do mundo dentro da gua, o pintor renascentista poderia recorrer ao nadador Cesar Cielo como modelo. A pedido de VEJA, o fsico Marcos Duarte, professor de engenharia biomdica da Universidade Federal do ABC e colaborador do Instituto Vita (So Paulo), analisou as medidas do brasileiro e como elas o tornam um atleta ideal para as provas aquticas de velocidade.

MOS GRANDES - Um nadador com mos grandes tem os mesmos benefcios de um canosta autorizado a competir com um remo mais largo. Quanto maior a rea de contato com a gua, maiores a fora exercida, a velocidade adquirida e a distncia percorrida.
Largura da mo: 9,3 centmetros
Comprimento da mo: 22 centmetros

MAIS ALTO QUE A MDIA - Um estudo noruegus demonstrou que um nadador pode ser mais rpido apenas pela diferena de altura, porque pode iniciar as viradas na piscina antes dos adversrios e, alm disso, viajar mais suavemente pela gua, produzindo menos arrasto
da mo:
Cielo 1,95 metro
Mdia dos brasileiros de 25 anos 1,73 metro

FORMATO DE TORPEDO - Quanto maior a diferena entre a largura dos ombros e a da cintura, menor a resistncia oferecida pelo corpo do nadador  gua. A cintura de Cielo tem apenas 71% da largura dos ombros, o que o transforma numa espcie de foguete dentro da gua

BRAOS LONGOS - Se dois atletas produzem a mesma quantidade de fora, aquele com os braos mais longos nadar mais rpido, porque precisar de menos braadas para percorrer a mesma distncia.
Largura dos ombros: 47 centmetros
Envergadura: 2,04 metros
Largura da cintura: 33,2 centmetros

PS LONGOS - O movimento dos ps, chamado de flexo plantar, impulsiona os nadadores da mesma maneira que os lobos horizontais da cauda das baleias. Assim como no caso das mos, quanto maior o comprimento, melhor.
Comprimento do p: 29,6 centmetros
flexo plantar

RESULTADO - Cielo  capaz de atingir uma velocidade mxima de 84 quilmetros por hora

FONTES: IBGE, Jan Prins, diretor do Laboratrio de Pesquisas Aquticas da Universidade do Havai, e Paulo Cezar Marinho, biomecnico e analista tcnico da Seleo Brasileira de Natao.


3. ENGENHARIA  FEITA PARA REDORDES
A piscina principal do Centro Aqutico de Londres, palco da primeira Olimpada depois do banimento dos supermais, foi projetada para ajudar os atletas a melhorar suas marcas e, de quebra, encantar o pblico.
JONAS OLIVEIRA E NATLIA LUZ

Custo: 422 milhes de dlares
Tempo de construo: 3 anos
Cronmetros: So cinco vezes mais precisos que os equipamentos usados em Pequim e uma garantia de que ser quase impossvel haver empates nas provas
Drenos especiais: Melhoram a vazo da gua e reduzem drasticamente a ondulao
Boias: Possuem um design circular que tambm ajuda a dissipar as ondas.
Quanto menos marola, mais rpido a gente consegue nadar e aumenta a chance de medalha. A temperatura controlada tambm ajuda porque numa piscina muito fria fica mais difcil se aquecer e usar toda a fora dos msculos - Felipe Frana, promessa do Brasil para os 100 metros peito.

3 metros: Com essa profundidade a gua que se movimenta em direo ao fundo da piscina demora mais para retornar a superfcie e no atrapalha a progresso dos nadadores
26 graus: A temperatura exata da gua  de 3 a 4 graus mais baixa que a mdia das piscinas de lazer. A temperatura menor deixa a gua mais densa, o que facilita a movimentao dos atletas

Luminosidade: O sistema de iluminao segue a norma para as transmisses televisivas em piscinas cobertas  clara o suficiente para a televiso, mas sem incomodar os nadadores.

Blocos de largada: H um painel de luzes instalado nos pontos de partida.  Assim que os atletas tocarem na borda, o sistema indicar os vencedores; uma luz para o primeiro lugar, duas para o segundo e trs para o terceiro.

Largura das raias: Cada uma das dez raias mede 2,5 metros, conforme o padro oficial. Nas provas finais, a primeira e a dcima ficaro vazias para evitar que as ondas desfavoream os atletas.


3. VELOCIDADE  100 METROS  COMO VENCER SEM CORRER MAIS RPIDO
Usain Bolt sabe que o caminho de um novo recorde mundial  largar no limiar do humanamente possvel e contar com a ajuda do vento dentro do permitido pelas regras
LIGIA CARRIEL

PARA VER NA TV
100 m
Semifinais  Dia 5/8 a partir das 15h45
Final  Dia 5/8 17h50

A mais fascinante e conhecida das provas olmpicas  tambm a mais simples e a mais curta. Os 100 metros rasos concedem ao vencedor um ttulo cobiado, o de homem mais rpido na face da Terra, o ser humano que mais velozmente atravessa uma linha reta que comea com o disparo eletrnico e termina com a eternidade. O jamaicano Usain Bolt  o dono do atual recorde mundial, de 9,58 segundos, marca alcanada no Campeonato Mundial de Atletismo de Berlim, em 2009   um tempo que estimativas matemticas imaginavam ser possvel atingir
apenas em 2080. Antes de Bolt, o recorde era do tambm jamaicano Asafa Powell., que conseguira 9,74 segundos.  uma diferena aparentemente pequena do ponto de vista do cronmetro, mas espetacularmente imensa quando submetida  lente de aumento da histria. Em 1912, o americano Don Lippincott cravou 10,6 segundos. Foram necessrios 56 anos para que outro americano, Jim Hines, vencesse a barreira dos 10 segundos.
     Bolt chega a Londres como a grande estrela do atletismo, possivelmente de toda a Olimpada, o nome a ser batido. Ele luta pela segunda medalha de ouro sucessiva na rainha de todas as provas, mas tambm  e sobretudo  contra seu prprio tempo. Apenas vencer ser muito pouco, quase uma obrigao. Vencer, alis, no ser nada fcil. Nas provas seletivas jamaicanas, Bolt foi derrotado nos 100 e nos 200 metros pelo conterrneo Yohan Blake, com tempos apenas razoveis. Lembre-se que Bolt no tinha necessidade de ganhar as provas, bastava assegurar a classificao para Londres. De qualquer modo, foi uma surpresa, e rapidamente deu-se o diagnstico: Bolt perdeu para Blake nos 100 metros porque tem um tempo de reao ao tiro de largada ruim. Dali para a frente, e especialmente depois da metade da prova, no tem para ningum. Bolt est to  frente dos outros que ele pode se dar ao luxo de ser alegre, brincalho e relaxado, afirma Dan Pfaff, treinador da equipe britnica de atletismo. Seria interessante se houvesse outros dois ou trs corredores para desafi-lo depois dos 70 metros. Blake pode ser um desses desafiadores, convm acompanh-lo de perto nos Jogos, mas outros ainda no h.
     Para Bolt, portanto, h um nico caminho para baixar os 9,58 segundos: olhar para trs, embora no literalmente. A boa largada  o que o far mais veloz. Dito de outra maneira, ainda que soe intrigante:  possvel vencer sem correr mais rpido. Os velocistas com melhor tempo de reao saem do bloco 0,12 segundo depois do tiro de largada, no limite mais prximo do autorizado pela Associao Internacional de Federaes de Atletismo. Ser mais rpido que isso significa queimar a sada. Quando bateu o recorde mundial em Berlim, Bolt reagiu ao tiro em 0,146 segundo, a sexta melhor marca (Richard Thompson, de Trinidad e Tobago, respondeu em mero 0,119 segundo). E, no entanto, apesar do reflexo inicial tardio para um padro olmpico, Bolt acelerou e venceu com facilidade, esmagando o passado dos 100 metros.
     O esforo atual de treinamento de Bolt  todo centrado na largada  o que inclui no s a prtica de reflexos, mas tambm acompanhamento psicolgico. A concentrao dos atletas nos instantes que antecedem o incio da prova parece gritar de to tensa. O comportamento de cada um dos oito atletas alinhados na pista equivale ao do condenado  morte ante o peloto de fuzilamento. A tenso e a ansiedade pela largada ideal produzem erros. No Campeonato Mundial de 2011, em Daegu, na Coreia do Sul, Bolt queimou a largada  e basta queimar uma nica vez para ser desclassificado.  a grande preocupao da equipe de Bolt em Londres. Se tudo der certo  a exploso inicial associada s 41 passadas, em mdia, que o jamaicano d at vencer a linha de chegada (os outros do 47) ,  possvel um novo recorde mundial. Sobretudo se o vento ajudar. Em Berlim, o vento a favor soprou a 0,9 metro por segundo. At 2 metros por segundo no h problema  mais que isso invalida os tempos. Mas ter a resposta no vento  algo demasiadamente impondervel para entrar no clculo. O matemtico John Barrow, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, fez alguns clculos e chegou a uma concluso: se Bolt conseguir largar em um tempo semelhante ao melhor tempo de reao da Olimpada de Pequim, em 2008, ele pode correr 0,05 segundo abaixo do recorde. Se o vento der uma fora (ok, ok, no contemos com ele), ele tiraria mais 0,05 segundo. Resultado: 9,48 segundos. Improvvel, mas  extraordinrio imaginar que o homem mais rpido do mundo consiga esse feito.

AS PEDRAS NO CAMINHO DO JAMAICANO
TEM DE REAO LENTO: o tempo de reao mnimo estabelecido pela Associao Internacional de Federaes de Atletismo  de 0,1 segundo ao tiro de largada. Qualquer movimento antes disso  considerado uma sada falsa, o que elimina o competidor.

O homem mais rpido do mundo perdeu a disputa dos 100 metros e dos 200 metros para seu conterrneo Yohan Blake nas seletivas jamaicanas por causa da largada ruim  se melhor-la ele conseguir fazer tempos ainda mais espetaculares. O desafio  imenso.

FINALISTAS DO MUNDIAL DE BERLIM (2009), ELENCADOS EM ORDEM CRESCENTE DE REAO AO TIRO

ATLETA/PAS: Richard Thompson (TRI)
TEMPO DE REAO: 0,119 segundo
TEMPO DE CORRIDA: 9,811 segundos
TEMPO FINAL: 9,93 segundos
CLASSIFICAO: 5

ATLETA/PAS: Dwain Chambers (GBR)
TEMPO DE REAO: 0,123 segundo
TEMPO DE CORRIDA: 9,877 segundos
TEMPO FINAL: 10 segundos
CLASSIFICAO: 6

ATLETA/PAS: Daniel Bailey (ANT)
TEMPO DE REAO: 0,129 segundo
TEMPO DE CORRIDA: 9,801 segundos
TEMPO FINAL: 9,93 segundos
CLASSIFICAO: 4

ATLETA/PAS: Asafa Powell (JAM)
TEMPO DE REAO: 0,134 segundo
TEMPO DE CORRIDA: 9,706 segundos
TEMPO FINAL: 9,84 segundos
CLASSIFICAO: 3

ATLETA/PAS: Tyson Gay (EUA)
TEMPO DE REAO: 0,144 segundo
TEMPO DE CORRIDA: 9,566 segundos
TEMPO FINAL: 9,71 segundos
CLASSIFICAO: 2

ATLETA/PAS: Usain Bolt (JAM)
TEMPO DE REAO: 0,146 segundo
TEMPO DE CORRIDA: 9,434 segundos
TEMPO FINAL: 9,58 segundos
CLASSIFICAO: 1

ATLETA/PAS: Darvis Patton (EUA)
TEMPO DE REAO: 0,149 segundo
TEMPO DE CORRIDA: 10,191 segundos
TEMPO FINAL: 10,34 segundos
CLASSIFICAO: 8

ATLETA/PAS: Marc Burns
TEMPO DE REAO: 0,165 segundo
TEMPO DE CORRIDA: 9,835 segundos
TEMPO FINAL: 10 segundos
CLASSIFICAO: 7

TAMANHO DO BLOCO DE LARGADA
Bolt reclamou dos novos modelos de bloco de largada que sero utilizados em Londres  os mesmos das seletivas jamaicanas. Eles so um pouco curtos para mim, disse. Bolt  mais alto que a maioria dos outros velocistas e cala sapatilhas tamanho 46. A Omega, fabricante do equipamento, rebate as crticas dizendo que a altura dos apoios dos ps permanece a mesma. As alteraes ocorreram apenas na inclinao do suporte e na largura dos apoios, que passou de 12 para 16 centmetros. Em um esporte to preciso, mudanas sensveis como essas podem afetar diretamente o desempenho dos atletas
Fontes: Associao Internacional de Federaes de Atletismo e Omega

O FRANKENSTEIN VELOZ
Se fosse possvel juntar as melhores parciais da histria em cada fase da prova dos 100 metros rasos, o resultado seria uma corrida que ficaria 21 dcimos de segundo abaixo da melhor marca atual.

DISTNCIA (em metros): 0-10
TEMPO (em segundos): 1,69
ATLETA (pas): RAYMOND STEWART (JAM)
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Tquio 1991

DISTNCIA (em metros): 10-20
TEMPO (em segundos): 0,99
ATLETA (pas): USAIN BOLT (JAM)
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Berlim 2009

DISTNCIA (em metros): 20-30
TEMPO (em segundos): 0,89
ATLETA (pas): MAURICE GREENE (EUA)
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Estocolmo 1999

DISTNCIA (em metros): 30-40
TEMPO (em segundos): 0,86
ATLETA (pas): MAURICE GREENE
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Londres 1999

DISTNCIA (em metros): 40-50
TEMPO (em segundos): 0,83
ATLETA (pas): USAIN BOLT (JAM)
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Berlim 2009

DISTNCIA (em metros): 50-60
TEMPO (em segundos): 0,82
ATLETA (pas): MAURICE GREENE (EUA)
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Roma 1999

DISTNCIA (em metros): 60-70
TEMPO (em segundos): 0,81
ATLETA (pas): USAIN BOLT (JAM)
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Berlim 2009

DISTNCIA (em metros): 70-80
TEMPO (em segundos): 0,82
ATLETA (pas): USAIN BOLT (JAM)
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Pequim 2008

DISTNCIA (em metros): 80-90
TEMPO (em segundos): 0,83
ATLETA (pas): USAIN BOLT (JAM)
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Pequim 2008

DISTNCIA (em metros): 90-100
TEMPO (em segundos): 0,83
ATLETA (pas): USAIN BOLT (JAM)
LOCAL E DATA DA PARCIAL: Berlim 2009

NOVO RECORDE: 9,37 segundos
Recorde de Bolt: 9,58 segundos (Berlim  2009)

Fontes: The Perfection Point, de John Brenkus, e Track & Field News

O SEGREDO DA BATATA-DOCE
Se os cientistas ainda no conseguiram explicar por que os corredores jamaicanos so mais rpidos que os concorrentes, em um domnio constrangedor, a tia do campeo olmpico Usain Bolt parece ter encontrado a soluo do mistrio: a batata-doce. No ria: de acordo com Lilly Bolt, o segredo de seu sobrinho ser to rpido so os pratos feitos em seu restaurante a partir do tubrculo. A tia de Bolt revela que o velocista come desde pequeno generosas pores de batata-doce cozida e que esse  o combustvel indispensvel do homem mais rpido do mundo. O que parece ser apenas um elemento folclrico dos jamaicanos j ganhou adeptos entre os pesquisadores da rea de medicina esportiva.  um efeito bioqumico. A batata-doce  rica em fitoesteris, compostos orgnicos que so convertidos pelo corpo em hormnios como testosterona, disse a VEJA o mdico Errol Morrison, presidente da Universidade de Tecnologia de Kingston, um dos maiores centros de pesquisa sobre desempenho esportivo da Jamaica.
	Mas, antes que algum corra ao supermercado em busca do elixir da velocidade, um aviso: o resultado no  instantneo, Aliado a um treinamento intensivo desde a infncia e a adolescncia, o alto consumo desses esteroides faz com que os jovens desenvolvam exageradamente as fibras musculares, principalmente aquelas de resposta rpida, diz Morrison. Essa hiptese, ainda segundo o cientista jamaicano, faz mais sentido do que a existncia de um gene especial para a corrida. Foram analisadas amostras de tecido e DNA de velocistas como Usain Bolt e Asafa Powell, em busca de genes pretensamente ligados ao ato da corrida. No foi encontrada nenhuma diferena em relao ao resto da populao.


4. FISIOLOGIA  MARATONA  O ELIXIR QUENIANO CHAMA-SE HBITO
De uma mesma regio do Qunia, ao redor de Iten, brotam alguns dos maiores fundistas do mundo.  Buscou-se explicao gentica, mas ela inexiste.
NATLIA LUZ

PARA VER NA TV
Dia 12/8 7h00

     Ainda est escuro, so 6 da manh, quando grupos de corredores comeam a percorrer as estradas empoeiradas de Iten, um vilarejo de 4000 moradores localizado no Qunia, no leste da frica. O lugar tem uma particularidade: Iten  um celeiro de fundistas, atletas afeitos ao mximo controle do sistema aerbico. Vm daquela regio os maratonistas Wilson Kipsang, Abel Kirui e Emmanuel Mutai, representantes quenianos na Olimpada de Londres.  um trio com potencial para alimentar uma estatstica fascinante. Dos 100 primeiros atletas no ranking mundial da maratona, 61 so do Qunia. Das ltimas dez edies da corrida de longa distncia em Londres, uma das mais badaladas do mundo, oito foram vencidas por quenianos. O pas tem tantos talentos na modalidade que pde at cortar da delegao olmpica de 2012 um nome extraordinrio como Patrick Makau, recordista mundial da prova.
     Mas quais so os segredos dos quenianos, especialmente os de Iten? Cientistas chegaram a investigar a existncia de um gene associado ao bom desempenho em provas de longa distncia, que determinasse a capacidade de um atleta de consumir mais oxignio e produzir menos cido ltico, freio para o bom funcionamento dos msculos. Nada foi encontrado, a no ser o porte fsico  alto e magro  dos cidados africanos. Outro fator, este naturalmente mais provvel,  a altitude da regio. H consenso entre especialistas de que o treinamento em cidades muito acima do nvel do mar  Iten fica a 2500 metros  ajuda os atletas a burlar sua capacidade de transportar oxignio. Houve ateno tambm com a dieta,  base de arroz, feijo e ugali, um pur de milho muito comum. O.k., mas tipos longilneos que vivem em altitudes elevadas e comem o que comem os quenianos existem em outros cantos do mundo sem sucesso no atletismo de longas travessias.
     A explicao pode ser mais comezinha. Trata-se de resultado de um hbito que vem da infncia, da probabilidade de brotarem campees quando muita gente se dedica a uma atividade, apesar do cho. Em ambiente de pobreza, mesmo as crianas tm de trabalhar duro, correm da escola para o emprego, descalas. Cuidam de cabras e cavam poos. O bilogo Yannis Pitsiladis, da Universidade de Glasgow, na Esccia, descobriu depois de extenso levantamento que a sola dos ps dos quenianos de Iten  dura como lixa. Em meio a buracos, eles correm com cuidado. E desse cuidado nasce um modo diferente de correr, afirma Colm OConnell, um missionrio irlands dedicado ao estudo dos maratonistas africanos desde os anos 80.
     Misses venezuelanas pululam no porque exista um elixir local de beleza  h um padro, h interesse e investimento. Os quenianos, por celebrar a modalidade, transformam seus praticantes em dolos, em pessoas admiradas. Os corredores vm de famlia pobre, de baixa escolaridade, diz Renato Canova, treinador de fundistas. Quando eles ganham, toda a aldeia celebra a vitria. Dessa equao nascem os campees  e no de um determinismo gentico insustentvel.

DOMNIO AFRICANO
 Dos 100 maratonistas com melhor colocao no ranking mundial, 61 so quenianos
 Eles ocupam 57 posies entre os 100 melhores da corrida de 10.000 metros e 47 na prova de 5000 metros
 Entre 1991 e 2009, conquistaram 93 medalhas em mundiais e Olimpadas, sendo 32 de ouro
Fonte: Associao Internacional das Federaes de Atletismo  IAAF


5. TREINAMENTO  SALTO COM VARA  UM BAL COMPLEXO
A modalidade exige que se combine a velocidade dos 100 metros rasos com a habilidade da ginstica artstica  o resultado  plstico e empolgante.
ALEXANDRE SALVADOR

PARA VER NA TV
Salto com vara
Eliminatrias  Dia 4/8 a partir das 6h20
Final  Dia 6/8 15h00

     Se uma campe dos 100 metros rasos tentasse quebrar o recorde do salto com vara, sua velocidade ajudaria, mas no seria uma garantia de sucesso. Ela acumularia bastante energia durante a corrida, mas, sem a tcnica adequada, provavelmente acabaria passando direto pelo encaixe no solo e dando de cara com o colcho. Sair do cho  to importante quanto correr nele, e essa etapa requer habilidades de ginasta. Em um segundo, deve-se mudar a posio do corpo e usar a flexo da vara como uma mola para impulsion-lo. No final de tudo, ainda h a necessidade de contorcer o corpo como uma bailarina para no derrubar o sarrafo.  uma arte, definiu Vitaly Petrov, ex-tcnico dos recordistas mundiais Sergey Bubka, cuja marca de 6,15 metros no foi batida at hoje, e Yelena Isinbaeva, dona do salto mais alto na ala feminina, com 5,06 metros.
      uma arte que o ucraniano aperfeioa em treinamentos especiais com a brasileira Fabiana Murer desde 2001.
     Petrov  o responsvel pelo salto de qualidade no desempenho da atleta. O segredo no  s fora. Os atletas devem ter mobilidade e boa coordenao para a parte acrobtica, disse Petrov a VEJA. Quando Fabiana comeou a trabalhar com ele, sua melhor marca era 3,91 metros. No ano passado, a saltadora atingiu 4,85 metros. Agora, o objetivo  alcanar a marca dos 5 metros, o que pode representar uma medalha em Londres (veja o quadro abaixo). A Yelena  uma atleta muito forte, determinada. Mas o salto com vara tambm  um esporte de cabea. No basta ter ultrapassado 5 metros no passado. Se no saltar na competio, no conta, diz Elson Miranda, tcnico de Fabiana, ao se referir  rival russa. Depois de ter sido prejudicada pelo sumio de suas varas em Pequim, em um episdio constrangedor, Fabiana j aprendeu que a parte psicolgica  elemento decisivo no bal do atletismo.

SALTO PARA O PDIO
O que Fabiana Murer precisa fazer para se aproximar da marca dos 5 metros e aumentar suas chances de ganhar uma medalha em Londres. O recorde mundial de Yelena Isinbaeva  5,06 metros. A melhor marca da brasileira  4,85.

1- ACELERAO: Quanto maior for a velocidade da atleta na corrida, maior ser a energia transferida para a vara.
Fabiana atinge uma velocidade de 30 quilmetros por hora. Ela precisa chegar a 31 quilmetros hora para, pelo menos, 1gualar a velocidade de Isinbaeva.

2- A LTIMA PISADA: O derradeiro contato do p com o solo antes de a atleta alar voo deve acontecer num tempo ideal que lhe permita aproveitar ao mximo a energia acumulada na corrida. Se demorar muito, ela poder sofrer uma desacelerao brusca e perder energia na forma de calor.
No caso de Fabiana, esse tempo deve ficar entre 95 e 105 milsimos de segundo, o equivalente a um piscar de olhos.

3- DECOLAGEM: O ngulo formado entre a vara e a pista  crucial para a qualidade do salto. Um erro de angulao pode resultar at mesmo num acidente.
Fabiana precisa repetir seus ltimos saltos e se manter na faixa de 32 a 35 graus, ideal para o seu o de movimento.

4- REVERSO: A atleta precisa de fora para mudar sua posio durante o salto. Quanto maior for a fora aplicada, maior ser o impulso vertical do corpo e, por consequncia, a altura atingida.
Para melhorarem a reverso de Fabiana, o que resultaria num salto mais alto, os treinadores elaboraram uma rotina de exerccios para o fortalecimento dos msculos do tronco, os mais exigidos nessa etapa.

5- INVERSO: A expulso da vara e a rotao do corpo tm de ser feitas no menor tempo possvel, para diminuir o risco de ela encostar no sarrafo.
Fabiana se vale de sua experincia como ex-ginasta para realizar uma inverso quase perfeita, que lhe permite utilizar com eficincia a energia acumulada durante a decolagem.

6- VOO: Durante a queda, a atleta deve puxar ao mximo os braos para baixo e o trax para trs, movimento chamado de hiperextenso, afastando-se do sarrafo.
Nesse ponto, mais uma vez, a experincia na ginstica artstica garante a Fabiana uma vantagem sobre as adversrias.

O EQUIPAMENTO: As mulheres competem com varas de fibra de vidro, que se deformam com mais facilidade e, por isso, exigem menos fora. Para os Jogos de Londres, Fabiana encomendou varas mais longas e resistentes que podem lhe dar impulso para os necessrios centmetros a mais.

Fontes: Irineu Loturco Filho, diretor tcnico do Ncleo de Alto Rendimento Esportivo/Po de Acar, e Elson Miranda, tcnico da atleta.


6. BIOMECNICA  SALTO EM DISTNCIA  A ARTE DE GANHAR CENTMETROS
Entenda um pouco mais da intrincada soma de fatores que faz atletas voar em busca da glria olmpica
JOO MELLO

PARA VER NA TV
SALTO EM DISTNCIA
Eliminatrias  dia 7/8 a partir das 15h05
Final  Dia 8/8 16h05

     O salto em distncia  uma das modalidades mais complexas do atletismo em termos de movimentos biomecnicos. Levando em considerao apenas as ltimas cinco e decisivas passadas, o atleta tem trs problemas para resolver simultaneamente: conservar a velocidade, atingir a tbua de impulso com preciso e rapidez e, por fim, mudar totalmente a posio do corpo. A perfeio em uma etapa compromete a outra: correr muito rpido pode provocar a queima do salto. Concentrao exagerada na mudana de posio do corpo, de modo a angul-lo para o voo, resulta em contato mais demorado com o solo na ltima pisada e, consequentemente, na perda de parte da energia da corrida. Maurren Maggi, a primeira atleta brasileira a ganhar o ouro em um esporte individual numa Olimpada, sabe a importncia de se preocupar com os detalhes do salto. Em Pequim, ela conquistou centmetros preciosos ao conseguir saltar a menos de 1 centmetro da linha de queima  a segunda colocada, que fez 7,03 metros, ficou a 4 centmetros da linha. Maurren venceu com 7,04 metros.
     Por causa de toda essa complexidade, a ajuda da cincia  essencial quando se quer voar mais longe. Nesse caso, Maurren esta bem assistida. O tcnico dela, Nelio Alfano Moura,  um dos maiores estudiosos do esporte. Alfano monopolizou o ouro da modalidade em Pequim, conquistando a medalha tanto no feminino quanto no masculino, com o panamenho Irving Saladino. Seu trabalho rigoroso de pesquisa ajuda a melhorar os resultados de um esporte em que os recordes esto entre os mais longevos da histria: a melhor marca feminina  de 1988, enquanto a masculina foi obtida em 1991. Talvez o fato de no ter havido nenhuma grande revoluo na tcnica do salto possa explicar parcialmente por que os recordes esto durando tanto, diz Alfano. Agora, estamos trabalhando na transio da corrida para o salto, aquelas ltimas passadas antes da tbua de impulso, diz Maurren. Nas contas do cientista-treinador, a atleta pode ganhar at 10 centmetros no salto se conseguir aumentar a velocidade na fase de transio em nfimo 0,36 quilmetro por hora. O ouro esta nos detalhes. Mas, naturalmente, a brasileira tem outro problema: ganhar da favorita, a americana Brittney Reese.

O SALTO DO SCULO Um nome que contribuiu para a aura de recordes imbatveis no salto em distncia  o americano Bob Beamon. Em 1968, com a ajuda do vento e da altitude da Cidade do Mxico, Bob saltou impressionantes 8,90 metros  55 centmetros a mais que a marca anterior. O salto foi to  frente de sua poca que s foi superado 23 anos depois, em 1991, pelo tambm americana Mike Powell.

A RECEITA PARA IR MAIS LONGE
Os recordes do salto em distncia esto entre os mais longevos do atletismo. A pedido de VEJA, o tcnico Nelio Alfano Moura calculou o que seria necessrio para os competidores executarem um salto perfeito em Londres.
VELOCIDADE - A 10 metros da tbua de impulso, ela deve ser de:
Homem: 39,2 quilmetros por hora
Mulher: 35,3 quilmetros por hora

LTIMO TRECHO - Nos derradeiros 6 metros, a velocidade aumenta um pouco:
Homem 40,3 quilmetros por hora 
Mulher 36,5 quilmetros por hora

ABORDAGEM - O toque na tbua deve acontecer a menos de 1 centmetro da linha de queima. O tempo de contato com o solo no pode ultrapassar 110 milsimos de segundo.

VOO
O ngulo de sada ideal para o salto  de:
Homem: 23,7 graus
Mulher: 22,4 graus

QUEDA
Na aterrissagem, os dois ps devem tocar a areia bem  frente dos quadris, a uma distncia mnima de 50 centmetros

RESULTADO FINAL
Novos recordes mundiais
Masculino: 9,18 metros
Feminino: 7,66 metros

RECORDES MUNDIAIS
MASCULINO: MIKE POWEL (EUA) 8,95 metros Tquio 1991
FEMININNO: GALINA CHISTYAKOVA (URSS) 7,52 metros So Petersburgo 1988.

Fonte: marcos Duarte, professor de engenharia biomdica da Universidade Federal do ABC e consultor do Instituto Vita (So Paulo).


7. ADAPTAO  BASQUETE  AJUDA ESTRANGEIRA
Um treinador argentino medalhista de ouro e fundamentos importados da NBA so as armas do Brasil para reconquistar o prestgio.
ALEXANDRE SALVADOR

     Depois de dezesseis anos ausente dos Jogos, a seleo masculina retorna s quadras olmpicas muito diferente do time que terminou em sexto lugar em 1996 (Atlanta). Naquele tempo, todos os jogadores atuavam no pas, o tcnico era brasileiro e o lder do time era Oscar Schmidt. Hoje, alm dos atletas que disputam o campeonato brasileiro, a equipe tem craques que competem na Europa e na NBA, a poderosa liga dos Estados Unidos. H at um americano naturalizado no elenco. O tcnico, Rubn Magnano, levou a Argentina ao ouro em 2004. Essa legio estrangeira resulta numa mistura interessante  incapaz, talvez, de trazer o pdio, mas evidentemente forte. O jogo que estou tentando empregar  mais ttico e parecido com o europeu, que aproveita a fora fsica e o talento individual, muito valorizados na NBA, diz Magnano. Na prtica, trata-se de um grupo com imenso poder de marcao e objetividade que no descarta o jogo exibicionista do basquete americano e seu show de enterradas. Se Michael Jordan e Kobe Bryant mudaram seu estilo de jogo em prol da equipe, por que no faramos assim aqui?, questiona o treinador.
     A harmonia entre os dois estilos foi lenta e gradual, repleta de confuses. O piv Nen e o armador Leandrinho, duas das estrelas da NBA, pediram dispensa do pr-olmpico. O piv Anderson Varejo, que tambm tem contrato nos Estados Unidos, no jogou por estar machucado. As ausncias no foram bem-vistas pelo restante dos jogadores. Porm, deixar os atletas americanos fora da Olimpada seria uma tolice, evidente fragilidade para uma seleo que enfrentar nas quadras a turma da NBA e os europeus. A seleo atual diferencia-se das anteriores por estar completa. No d para culpar os jogadores da NBA pela ausncia, eles cumprem contrato, e, se os donos dos times probem sua sada, como  possvel rebater?, diz Wlamir Marques, medalhista de bronze na Olimpada de Roma e na de Tquio, bicampeo mundial em 1959 e 1963 e hoje comentarista dos canais ESPN. Um bom desempenho em Londres  o que o basquete brasileiro precisa para deixar para trs o passado recente, em que disputar uma Olimpada era privilgio da vizinha Argentina. Ao importar fundamentos forasteiros, Magnano reuniu o melhor de todos os mundos, o que ser bom por aumentar as chances de medalha e tambm para quem se diverte vendo basquete.

VOO AO CESTO
A pedido de VEJA, os especialistas do Ncleo de Alto Rendimento mediram as grandezas produzidas numa enterrada de Alex Garcia, ala da seleo e do Braslia, eleito o melhor da sua posio na NBB por quatro temporadas seguidas.

1- CORRIDA - A velocidade de aproximao determina o alcance do salto. Pouco antes de sair do cho, Alex estava a 18 quilmetros por hora
2- DECOLAGEM - Nessa fase, o atleta desacelera bruscamente e flexiona as pernas de modo a transferir a energia da corrida para o salto. Alex demorou apenas 0,35 segundo para fazer o movimento. Nesse tempo, ele aplicou uma fora de 3500 newtons contra o cho, o equivalente a empurrar uma carga de 350 quilos
3- CRAVADA DA BOLA - Alex precisou desenvolver uma acelerao equivalente a 3,5 vezes a fora da gravidade para levar sua massa de 100 quilos e 1,91 metro a 1,2 metro do cho
4- ATERRISSAGEM - Depois de voar por 0,99 segundo e percorrer uma distncia horizontal de 1,93 metro, o atleta retornou ao solo.

Distncia percorrida horizontalmente 1,93 metro
Altura da cesta 3,05 metros
Altura do atleta 1,91 metro
Altura do salto 1,2 metro


8. DESEMPENHO  A DISPUTA DE GNEROS
A entrada do boxe feminino nos Jogos ilumina a longa busca por igualdade entre mulheres e homens no esporte.
ALEXANDRE SALVADOR

     Pela primeira vez, as mulheres disputaro medalhas no boxe, modalidade que ficou restrita aos homens por mais de um sculo  desde a terceira edio moderna dos Jogos, em 1904. Ressalte-se que o nmero de categorias para boxeadoras ser menor  apenas trs eventos femininos contra dez masculinos , mas a subida feminina ao ringue  mais um passo na longa busca por igualdade entre os sexos nos Jogos. Se a tendncia de crescimento dos ltimos quarenta anos se mantiver, somente na edio de 2032 o nmero de mulheres competindo deve se igualar ao de homens. Em Londres, haver 162 provas masculinas, 132 femininas, duas mistas (como tnis e badminton) e seis eventos abertos sem distino de sexo (caso do hipismo). A pedido de VEJA o Ncleo de Alto Rendimento Esportivo elaborou um levantamento indito comparando homens e mulheres, com base em avaliaes feitas com 376 atletas de elite de vrios esportes individuais. H fundamentais diferenas fisiolgicas entre os gneros.

LANADORES E ARREMESSADORES - Potncia dos membros superiores
Homem: 9 watts por quilo corporal
Mulher: 6 watts por quilo corporal
Diferena: 50%
Na biomecnica, o watt  usado para medir a potncia dos movimentos. Na prtica significa que os homens conseguem aplicar uma fora 50% maior que a das mulheres em um mesmo objeto durante o mesmo intervalo de tempo.

VELOCISTAS - Potncia dos membros inferiores
Homem: 17 watts por quilo corporal
Mulher: 13 watts por quilo corporal
Diferena: 31%
Corredores precisam aplicar uma grande quantidade de fora no solo em um curtssimo espao de tempo. Como os homens so mais fortes, suas pisadas geram mais velocidade.

TENISTAS  Mudana de direo em quadra
Homem: 3,4 segundos
Mulher: 3,9 segundos
Diferena: 15%
Os tempos de reao em quadra so semelhantes, mas a potncia muscular maior dos tenistas homens faz com que eles alcancem a bola com mais velocidade.

SALTADORES EM DISTNCIA  Impulso vertical
Homem: 52 centmetros
Mulher: 47 centmetros
Diferena: 10%
Nas provas de salto, a fora extra dos homens ajuda a converter uma parte maior da energia acumulada durante a corrida em velocidade horizontal, o que faz o atleta ir mais longe.

BOXEADORES  Tempo de reao dos golpes
Homem: 280 milsimos de segundo
Mulher: 280 milsimos de segundo
Diferena: Nula
Apesar de os homens serem capazes de desferir socos mais fortes, o tempo mdio para reagir a um estmulo e dar um jab (soco com a mo que esta na frente)  igual para ambos os sexos.

CLUBE DA LULUZINHA - Roseli Feitosa, da categoria peso mdio, de at 75 quilos, tentar a primeira medalha em uma modalidade antes restrita aos homens.
CLUBE DO BOLINHA  Esquiva Falco, tambm peso mdio, luta pelo primeiro ouro brasileiro no pugilismo olmpico.

A DIFERENA NOS RESULTADOS
Se competissem contra o sexo oposto, as mulheres medalhistas de ouro na Olimpada de Pequim, em 2008, s superariam os atletas masculinos em edies disputadas h meio sculo.

ATLETISMO 100 metros rasos
Melhor marca feminina: 10s78
Edio em que ganhariam dos homens: 1928

ATLETISMO 200 metros rasos
Melhor marca feminina: 21s74
Edio em que ganhariam dos homens: 1928

ATLETISMO 800 metros rasos
Melhor marca feminina: 1min54s87
Edio em que ganhariam dos homens: 1904

NATAO 100 metros livre
Melhor marca feminina: 53s12
Edio em que ganhariam dos homens: 1964

NATAO 100 metros costa
Melhor marca feminina: 58s96
Edio em que ganhariam dos homens: 1960

SALTO EM DISTNCIA 
Melhor marca feminina: 7,04 metros
Edio em que ganhariam dos homens: 1896

SALTO EM ALTURA 
Melhor marca feminina: 2,05 metros
Edio em que ganhariam dos homens: 1952


9. REGULAMENTO  O DOPING LEGAL
Como melhorar o desempenho sem usar substncias proibidas
EDGARD MATSUKI E JONAS OLIVEIRA

     O doping esportivo  uma longa disputa de avanos tecnolgicos  uns descobrem modalidades de enganao que escapam aos olhos das autoridades. Estas desenvolvem exames capazes de rastrear qualquer contrafao. Os criminosos provocam as autoridades, e desse jogo brotam inquestionveis avanos cientficos na compreenso do funcionamento do corpo humano. Por mais qualificadas que sejam as agncias que investigam o uso de substncias proibidas, h sempre a impresso de que o doping est um passo  frente. O inacreditvel desempenho dos atletas da Alemanha Oriental nos anos 70 e 80  sobretudo das nadadoras  foi explicado anos depois pela existncia de um esquema sistemtico de doping, naquela poca incapaz de aparecer nos testes.
     Em nome da cincia, as amostras colhidas nos Jogos Olmpicos so congeladas e mantidas durante oito anos, para que possam ser testadas caso surjam novos mtodos de deteco. O problema  que os dois lados  o do mal e o do bem  so muito espertos.  preciso ser muito burro para ser pego durante uma Olimpada, diz o bioqumico ingls Chris Cooper, da Universidade de Essex, que acaba de lanar o livro Run, Swim, Throw, Cheat  The Science Behind Drugs in Sport (Corra, Nade, Arremesse e Engane  A Cincia por Trs das Drogas no Esporte). A maioria das substncias que realmente melhoram o desempenho no precisa ser usada durante os Jogos. Um modo educativo de aproveitar o que hoje se sabe do doping  um subproduto positivo da malandragem esportiva   conhecer produtos legais que podem substituir, ainda que no exatamente do mesmo modo, as substncias ilegais.

ESTEROIDES ANABOLIZANTES X MILK-SHAKES PROTEICOS
Os esteroides anabolizantes simulam os efeitos da testosterona, hormnio masculino, aumentando o acmulo de tecido muscular. A deteco das substncias ilegais  difcil, mas os efeitos colaterais do uso entregam a contrafao: msculos desenvolvidos rapidamente e estruturas corporais exageradamente fortes. Segundo o bioqumico Chris Cooper, os anabolizantes podem fazer grande diferena para as mulheres, mas nem tanto para os homens. Se dopssemos Usain Bolt, ele correria mais rpido? Provavelmente no. Uma alternativa dentro da lei so os complementos alimentares, os isotnicos e os milk-shakes. Evidentemente, eles no propiciam o ganho muscular imediato das drogas.
Quem mais usa esteroides anabolizantes: velocistas

SEDATIVOS x PSICOLOGIA
As substncias sedativas so usadas para manter a concentrao. Os atletas naturalmente mais ansiosos e nervosos so os usurios mais contumazes. Uma forma legal de obter um resultado parecido  utilizar tcnicas de psicologia para aumentar a ateno na hora da prova. Simples assim.
Quem mais usa sedativos: esportistas de tiro e arco e flecha

ANFETAMINAS x CAF
Estimulantes como a anfetamina, usada para aumentar a capacidade fsica, so proibidos. Para conseguir um desempenho prximo ao proporcionado por essas substncias,  possvel consumir caf ou energticos, que tambm estimulam o fluxo sanguneo. Em 2004 a cafena foi liberada da lista de substncias proibidas de doping.
Quem mais usa anfetaminas: ciclistas

EPO x ALTITUDE
O EPO  um hormnio produzido pelos rins que estimula a produo de clulas vermelhas no sangue. Quanto mais EPO, mais oxignio circula no organismo e melhor  o desempenho. H dois modos de conseguir o mesmo efeito: utilizar um hormnio EPO sinttico ou o chamado doping sanguneo (quando o atleta retira sangue e o guarda para reinjetar na hora da prova, garantindo maior produo de
hemcias). E como aumentar naturalmente a quantidade de EPO? O mtodo mais utilizado  o treinamento em grandes altitudes. Funciona porque, quanto maior a necessidade de oxignio, maior  a produo do hormnio.
Quem mais usa EPO: maratonistas

CAMPEONATO DA TRAPAA
Estudo realizado pela Universidade do Oeste da Esccia mostra que o desempenho de um competidor dopado pode ser entre 5% e 20% melhor. Se a contrafao qumica fosse liberada, os recordes atuais seriam ilegalmente dizimados  mesmo que algumas marcas sejam consideradas humanamente impossveis.

ATLETISMO 100 metros rasos
Recorde mundial: 9,58 segundos Usain Bolt (JAM)
Nova marca, melhorada em 5% com o doping: 9,10 segundos
Nova marca melhorada em 20% com o doping: 7,66 segundos

MARATONA 
Recorde mundial: 2h03m45s Patrick Musyoki (QUE)
Nova marca, melhorada em 5% com o doping: 1h57m33s
Nova marca melhorada em 20% com o doping: 1h39m00s

SALTO EM ALTURA
Recorde mundial: 2,45 metros Javier Sotomayor (CUB)
Nova marca, melhorada em 5% com o doping: 2,57 metros
Nova marca melhorada em 20% com o doping: 2,94 metros

SALTO EM DISTNCIA
Recorde mundial: 8,95 metros Mike Powell (EUA)
Nova marca, melhorada em 5% com o doping: 9,39 metros
Nova marca melhorada em 20% com o doping: 10,74 metros
SALTO TRIPLO
Recorde mundial: 18,29 metros Jonathan Edwards (GBR)
Nova marca, melhorada em 5% com o doping: 19,20 metros
Nova marca melhorada em 20% com o doping: 21,94 metros

NATAO 50 metros livre
Recorde mundial: 20,91 segundos Cesar Cielo (BRA)
Nova marca, melhorada em 5% com o doping: 19,86 segundos
Nova marca melhorada em 20% com o doping: 16,73 segundos

LEVANTAMENTO DE PESO Arremesso  Categoria acima de 105 quilos
Recorde mundial: 263 quilos Hossein Rezazadeh (IRA)
Nova marca, melhorada em 5% com o doping: 276 quilos
Nova marca melhorada em 20% com o doping: 315 quilos

MUTIRO CONTRA A ENGANAO
O laboratrio de doping de Londres testar 6250 amostras durante a Olimpada e a Paraolimpada, na semana seguinte. Um em cada dois atletas ser avaliado.


10. SADE  OS JOGOS SEDENTRIOS
A Olimpada  momento de exaltao de superatletas  mas que tal pensar nas marcas possveis para o cotidiano de um indivduo qualquer (voc)?
NATLIA LUZ

A pedido de VEJA, os fisiologistas Antonio Nbrega, professor da Universidade Federal Fluminense, e Walter Arajo Zin, professor do Instituto de Biofsica Carlos Chagas Filho, do Rio de Janeiro, analisaram os trabalhos cientficos mais recentes e estabeleceram os patamares fsicos de um indivduo comum, saudvel, entre 20 e 30 anos, em torno de 70 quilos, mas um tanto quanto parado.

QUANTO UMA PESSOA AGUENTA...

...FICAR SEM COMER?
O corpo humano  uma mquina inteligente que busca solues diante de uma dificuldade. Desde que se tome gua,  possvel ficar entre sessenta e oitenta dias sem comida. O problema  que o organismo fica debilitado e a pessoa pode morrer antes desse prazo como resultado de alguma doena.

...FICAR SEM BEBER GUA?
Nesse caso, atletas de elite e pessoas sedentrias tm o mesmo limite. O mximo que algum pode ficar sem consumir gua  trs dias. Depois desse perodo, o corpo se desidrata, a presso sangunea cai, os neurnios comeam a morrer, perde-se a conscincia e, por fim, os rgos param de funcionar.

...PERDER DE SANGUE?
Um indivduo de 70 quilos possui cerca de 6 litros de sangue. Uma perda entre 15% e 30% de sangue no representa grandes riscos. At 50%, ocorre desmaio e choque circulatrio. Se a perda superar 50% (3 litros), dificilmente a pessoa consegue sobreviver sem uma transfuso imediata.

...DE FRIO?
O limite varia conforme o tempo de exposio ao frio, a quantidade de roupa e a intensidade do vento, que altera a sensao trmica. Se estiver zero grau e a pessoa permanecer agasalhada, no h perigo. A mesma temperatura com roupas leves e vento forte  que aumenta a sensao de frio  leva  hipotermia em menos de dois minutos e  perda de conscincia em cinco minutos. Se a temperatura for de, 30 graus negativos, na mesma precria situao de cuidados, a pessoa congela em segundos.

...DE CALOR?
Assim como no frio, o tempo de exposio, a proteo utilizada e a temperatura so fundamentais para determinar o limite de exposio ao sol. Temperaturas acima de 42 graus so insuportveis por mais de vinte ou trinta minutos sem proteo (qualquer anteparo contra raios solares, como protetor, guarda-sol ou roupas). A temperatura do corpo aumenta bruscamente, e um quadro de insolao, decorrncia natural, pode levar  morte.

...FICAR SEM DORMIR?
 muito difcil permanecer mais do que trs dias sem dormir, uma vez que o corpo necessita do repouso para a recuperao metablica das clulas. A falta de sono pode levar a perda de ateno, irritao, confuso mental, baixa imunidade, hipertenso e doenas cardacas.


11. INEDITISMO  QUEM FREIA ESSAS PRTESES?
Velocista amputado de duas pernas disputar uma prova olmpica com atletas aptos. Ser esse o futuro do esporte?
NATHLIA BUTTI

PARA VER NA TV
400m: 1 rodada  Dia 4/8. A partir das 6h35
4 x 400m: 1 rodada  Dia 9/8. A partir das 7h35

     A largada das provas eliminatrias dos 400 metros (uma volta inteira na pista) tem tudo para ser um daqueles momentos mgicos, inesquecveis, que s uma Olimpada  capaz de produzir. Quem far o tempo congelar nas arquibancadas do Estdio Olmpico ser o sul-africano Oscar Pistorius, de 25 anos, o primeiro amputado convocado para uma competio olmpica em 116 anos de histria dos Jogos. Sem a metade das duas pernas desde os 11 meses, devido a uma m-formao ssea, Pistorius correr ao lado de atletas fisicamente aptos, com a ajuda das prteses Cheetah, feitas de fibra de carbono, que usa desde 2004. Ele tambm participara do revezamento 4 x 400 metros. A incluso de Pistorius no time sul-africano deve-se aos resultados alcanados por ele recentemente. No ano passado, durante a prova classificatria para o campeonato mundial, disputada por no deficientes, Pistorius correu 400 metros em 45,07 segundos  1,58 segundo atrs do recorde olmpico da categoria.  uma distncia imensa, e dificilmente ele alcanar a final.
     A convocao de Pistorius  controversa. Em janeiro de 2008, a Federao de Atletismo negou sua participao nas provas de Pequim por considerar suas prteses uma vantagem. Elas ajudariam a manter a velocidade e fariam o atleta gastar 25% menos energia do que os outros corredores. Munido de estudos que concluam o contrrio  ele estaria em desvantagem , Pistorius recorreu da deciso, revogada posteriormente. A despeito das divergncias, a importncia de sua participao  inquestionvel. Competir com atletas totalmente capacitados torna Pistorius um smbolo da superao de deficincias. Tambm faz dele o pioneiro do que pode ser uma nova era olmpica, na qual o aperfeioamento atltico incluir o uso de prteses e outros aparatos tecnolgicos.

HOMEM VERSUS MQUINA
Como as prteses do sul-africano Oscar Pistorius podem beneficiar ou prejudicar o seu desempenho nas pistas.

LARGADA
A exploso muscular da largada  determinante no resultado em corridas de curta distncia.
Atleta apto fisicamente: A inclinao do bloco de largada garante impulso extra ao corredor. Ps, quadris e panturrilhas so usados para empurrar o cho.
Pistorius: As lminas no se adequam aos blocos de largada. Somente os msculos dos quadris, que exigem o dobro da energia produzida pelas pernas, so acionados.
Quem leva vantagem: o homem

PISADA
Uma pisada forte garante o acmulo de energia para o impulso final e aumenta o tempo de contato dos membros com a superfcie da pista.
Atleta apto fisicamente: Panturrilhas, joelhos e tornozelos absorvem o impacto. As articulaes mantm os ps na pista por mais tempo. Usain Bolt gasta 0,34 segundo entre uma pisada e outra.
Pistorius: As lminas absorvem o impacto. O aparato, menos flexvel que as articulaes, torna a passada mais veloz. Ele gasta 0,28 segundo entre uma pisada e outra.
Quem leva vantagem: a mquina

EXTENSO DA PERNA
A energia absorvida do impacto  usada para a acelerao.
Atleta apto fisicamente: Glteos, quadrceps e panturrilhas produzem energia para mover o corpo para a frente. Os joelhos se estendem e o impulso  feito pelas articulaes, que tambm garantem a estabilidade.
Pistorius: Os msculos dos quadris coordenam o movimento. Ele no pode ajustar as contraes musculares e gasta mais energia para manter as prteses alinhadas.
Quem leva vantagem: o homem

IMPULSO FINAL
Tem melhor desempenho quem acumula mais energia durante a pisada.
Atleta apto fisicamente: A flexo das articulaes garante um impulso mais forte, mas aumenta o tempo de contato com o cho e reduz a velocidade.
Pistorius: A pouca deformao nas lminas mantm a energia acumulada, o que projeta o corpo do atleta para a frente com maior intensidade.
Quem leva vantagem: a mquina

Fonte: Marcos Duarte, professor de engenharia biomdica da Universidade Federal do ABC e colaborador do Instituto Vila (So Paulo).


12. SADE  UM DESAFIO PARTICULAR
Os 10.000 metros so a prova olmpica que mais se aproxima das possibilidades do comum dos mortais.

     A prova de 10.000 metros  25 voltas ao redor da pista de 400 metros   uma fbrica de mitos olmpicos. Produziu os finlandeses Paavo Nurmi (ouro em 1920 e 1928) e Lasse Viren (vencedor em 1972 e 1976), os etopes Haile Gebrselassie (1996 e 2000) e Kenenisa Bekele 2004 e 2008), alm do checo Emil Ztopek, a locomotiva que numa nica edio dos Jogos, em 1952, ganhou os 10.000, os 5000 e a maratona. A corrida de 10 quilmetros  uma modalidade nobre por exigir, alm de imensa capacidade aerbica de corpos longilneos, uma inteligncia especial na construo da estratgia. No  curta a ponto de permitir acelerao no incio nem to longa que autorize toadas mais cadenciadas. Representa o apogeu de um movimento conhecido na psicologia e fisiologia esportivas como resposta teleantecipatria. A partir de experincias anteriores, um atleta  capaz de programar mentalmente como vencer o trajeto. Os aspectos psicolgicos envolvidos na prtica esportiva so fundamentais at mesmo nas manifestaes fisiolgicas do organismo, diz o mdico e fisiologista Luiz Augusto Riani Costa, do Instituto Vita, de So Paulo, ps-graduado em medicina esportiva e fisiologia do exerccio pela USP.
     De todas as provas olmpicas de pista e rua, a dos 10.000 metros  aquela que talvez mais se aproxime do cidado comum. A maratona tem mais de 42 quilmetros,  muito. Os 5000 so curtos demais para representar desafio. Uma pessoa de 90 anos que pensa correr 10 quilmetros conseguir faz-lo, desde que bem treinada, diz o jurista Iber de Castro Dias, corredor contumaz, colunista da revista RUNNERS WORLD. A pedido de VEJA, Castro Dias realizou um teste de laboratrio para registrar o desempenho de seu organismo ao longo de 10 quilmetros (veja o quadro abaixo). Seu depoimento, ao relatar as sensaes da travessia, serve como um guia de comportamento com os tnis no cho. Por um momento, esquea Londres.

O SEGREDO EST NA CABEA
Entender como o corpo se comporta em cada fase da prova  a melhor maneira de se planejar para vencer os 10 quilmetros. A pedido de VEJA, o Instituto Vita, de So Paulo, analisou o desempenho de um atleta amador em excelente forma, Iber de Castro Dias.

Ficha do corredor: Idade 35 anos; Altura 1,79m; Peso 67Kg

GLOSSRIO
VO2:  o indicador do consumo de oxignio pelo organismo.  Quanto mais alto, maior  o esforo do atleta.
COEFICIENTE METABLICO: mede, entre outros fatores, a quantidade de cido ltico nos msculos.  Quanto maior a presena dessa substncia, maiores so o desgaste e a possibilidade de cibras.

DISTNCIA: Incio 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 77
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 13,74
Coeficiente Metablico: 0,72
Velocidade (em quilmetros por hora): 0

DISTNCIA: 1 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 154
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 45,01
Coeficiente Metablico: 0,84
Velocidade (em quilmetros por hora): 15,1

DISTNCIA: 2 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 165
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 46
Coeficiente Metablico: 0,89
Velocidade (em quilmetros por hora): 15,3

Os dois primeiros quilmetros so mais tranquilos porque o organismo ainda est se preparando para a atividade fsica prolongada.

DISTNCIA: 3 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 171
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 45,22
Coeficiente Metablico: 0,91
Velocidade (em quilmetros por hora): 15,5

Com o corpo aquecido, o corredor passa a aumentar a intensidade da corrida progressivamente.

DISTNCIA: 4 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 177
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 48,43
Coeficiente Metablico: 0,89
Velocidade (em quilmetros por hora): 15,7

DISTNCIA: 5 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 177
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 48,57
Coeficiente Metablico: 0,89
Velocidade (em quilmetros por hora): 15,9

DISTNCIA: 6 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 171
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 47,61
Coeficiente Metablico: 0,91
Velocidade (em quilmetros por hora): 16

O corredor atinge sua velocidade de cruzeiro. H um sbito aumento da atividade cardiorrespiratria. So os primeiros sinais de fadiga.

DISTNCIA: 7 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 185
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 49,31
Coeficiente Metablico: 0,93
Velocidade (em quilmetros por hora): 16

DISTNCIA: 8 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 188
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 48,99
Coeficiente Metablico: 0,93
Velocidade (em quilmetros por hora): 16
Nos ltimos dois quilmetros, a frequncia cardaca e o coeficiente metablico chegam prximo do limite.  a luta da mente contra o cansao.

DISTNCIA: 9 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 194
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 48,12
Coeficiente Metablico: 0,94
Velocidade (em quilmetros por hora): 16,5

DISTNCIA: 10 Km 
Frequncia Cardaca (batimentos por minuto): 202
VO2 (mililitros por quilo por minuto): 49,86
Coeficiente Metablico: 0,97
Velocidade (em quilmetros por hora): 17

Dentro do planejado, o corredor cruza a linha no mximo de sua capacidade, atingindo o pico em todos os indicadores.

D VONTADE DE PEDIR SOCORRO
     Quando amadores se pem a correr provas de rua, o objetivo, em regra, no  competir contra o outro, mas contra o relgio. No importa o tempo de quem venceu a prova, ou o do ilustre desconhecido que largou ao seu lado.  o voc de hoje tentando superar o voc de ontem. Para isso, o ideal  comear poupando energia e ir acelerando aos poucos. O primeiro quilmetro serve mais para entrar na prova. Se o plano for bem executado, ser o trecho mais lento de todos. Com respirao sob controle e pulsao baixa, a impresso  que esto sendo desperdiados segundos preciosos do tempo total. Bobagem. Quem cede  tentao e comea acelerando mais do que deve corre o risco de, no final, ser ultrapassado pelo voc de ontem.  uma luta mental. E o primeiro round  vencido por quem segura o mpeto.
     O segundo quilmetro serve como fase de transio.  a vez de encontrar o ritmo que ser mantido pela maior parte da prova. A sensao de esforo sobe um pouco, mas ainda  baixa. A partir do terceiro quilmetro o negcio  encaixar a velocidade de cruzeiro e ligar o piloto automtico. Embora o ritmo permanea constante, a pulsao e a sensao de esforo vo subindo. L pela metade da prova tem incio o segundo round da luta mental. A coisa j no parece to fcil quanto nos dois primeiros quilmetros, s que ainda faltam outros cinco. A respirao  forte e os msculos da perna comeam a resmungar. A sensao de esforo j est de mdia para alta.
     No fim do stimo quilmetro, a respirao  bem ofegante e o Sindicato das Fibras Musculares dos Quadrceps estar reunido em assembleia, votando se elas entram em greve. Quando a placa mostra KM 8,  a hora da verdade. Um ser que vai dar? comea a ecoar internamente. A sensao de esforo  bem alta. Tem incio o terceiro round, e a luta mental j virou um UFC, com voc imobilizado no tatame, tomando um mata-leo de um ucraniano com orelhas de repolho. Mas  preciso enxergar o aspecto glamouroso: este  o momento do banho de sais. Por fora, o corredor est envolto numa mistura de sdio, cloreto, potssio e magnsio, do suor; por dentro, inundado de lactato, produto do metabolismo. D vontade de pedir socorro, de desistir. Mas e o tempo gasto nos treinos sob chuva, sol, com vento, na lama? E aquele monte de dias madrugando para treinar, voltar a tempo de deixar os filhos na escola e ir para o trabalho?
     Eis que chega o ltimo quilmetro. S falta unzinho. O jeito  ir com o que sobrou, rezando para ter sobrado. A sensao de esforo entra no modo arrependa-se.  como um nirvana, um experimento extrassensorial: O corpo est ali, corao na boca, mas tudo parece um enorme filme nonsense, um Lucy in the Sky with Diamonds em 3D. E a luz do cinema s se acende cinco minutos depois de cruzada a linha de chegada.
Iber de Castro Dias


13. FSICA  O FUTEBOL MODERNIZADO
A Olimpada ser a ltima competio em que um time corre o risco de perder por causa de um gol que no existiu.
MARCELO GUTIERRES

     O novo estdio de Wembley, palco da final olmpica, ser a ltima arena de futebol de uma grande competio em que um juiz ou um bandeirinha sero xingados por marcar um gol que no aconteceu.  curioso que o fim de um tempo do futebol sem tecnologia se d em Wembley, palco de um dos lances mais polmicos da histria. Na prorrogao da final da Copa de 1966, o chute do ingls Geoff Hurst bateu no travesso e quicou em cima da linha. Apesar de a bola no ter entrado, como comprovaram centenas, milhares e milhes de repeties pela TV, o rbitro e o auxiliar validaram o lance. A Inglaterra acabou vencendo a Alemanha Ocidental por 4 a 2 e foi campe. O fim do gol-fantasma foi decretado h duas semanas pela International Football Association Board, rgo que rene a Fifa e as quatro federaes britnicas. A entidade, que legisla sobre as regras do futebol, aprovou o uso de duas tecnologias que avisam ao rbitro, com preciso e rapidez, se a bola entrou ou no (veja o quadro  esquerda). 
     Acabar com o gol-fantasma no significa expulsar de vez a polmica do futebol  e as partidas da Olimpada certamente alimentaro novas discusses. Marcar um impedimento no  tarefa das mais fceis. Alm de toda a presso da torcida, o bandeirinha ainda precisa se preocupar com a paralaxe, um fenmeno tico que altera a percepo da disposio dos jogadores em campo conforme o ponto de vista (veja o quadro na pg. 69). Uma anlise cientfica dos jogos das Copas de 2002 e 2006 revelou que houve 18% de erro na marcao de impedimentos. A linha de impedimento muda muito rpido. No caso do erro de paralaxe, a nica maneira de evit-lo  estar alinhado ao jogador que demarca a linha de impedimento o tempo todo, explica Marcos Duarte, professor de engenharia biomdica da Universidade Federal do ABC. Saudosistas e conservadores vocacionais gostam de dizer que o erro e a dvida  que do charme ao futebol. Mas minimiz-los, com os avanos da tecnologia,  fundamental.

FIM DA POLMICA
A Fifa aprovou as duas primeiras tecnologias que vo acabar com a dvida sobre se a bola cruzou a linha ou no, como aconteceu na Copa de 1966, no antigo Estdio de Wembley.

GoalRef
1- O sistema cria um campo magntico, que forma uma espcie de cortina invisvel, na rea delimitada pelas traves.
2- A bola  equipada com sensores que interagem com esse campo.
3- Quando a bola cruza completamente a linha, o sistema dispara, em menos de um segundo, um alarme para o relgio do rbitro.

Hawk-Eye
1- De seis a oito cmeras de alta velocidade so instaladas de cada lado do campo em ngulos diferentes no topo da cobertura do estdio.
2- As cmeras fazem uma varredura de todo o campo e as imagens so transferidas para um software que analisa a trajetria da bola em trs dimenses em tempo real.
3- Se a bola entrar totalmente, o juiz recebe um aviso no relgio.

CUSTO DE CADA TECNOLOGIA (por estdio): de 150.000 a 250.000 dlares

COMO UMA ILUSO DE TICA ENGANA O BANDEIRINHA
Antes de critic-lo por um impedimento mal marcado, convm lembrar que o auxiliar pode ter errado por causa da PARALAXE, um fenmeno tico que ilude o crebro, dependendo da posio em que se v a jogada.
O QUE DIZ A REGRA: No momento do passe, um atacante estar em posio de impedimento quando se encontrar mais prximo ao gol que o penltimo adversrio e a bola. Ele no ficar impedido se estiver em sua prpria metade do campo, na mesma linha do penltimo ou dos dois ltimos adversrios.

Numa jogada normal, sem impedimento, o bandeirinha...
...deixa o lance seguir se estiver posicionado na mesma linha formada pelo atacante e pelo defensor, como recomenda a Fifa.
..marca impedimento se estiver  direita da linha de zagueiros, porque tem a impresso de que o atacante est  frente do defensor.
POR QUE ISSO ACONTECE?
A mudana do ponto de vista, causada pelo posicionamento incorreto, altera a noo de profundidade da cena e induz o crebro a registrar uma diferena de localizao entre os atletas.
Fontes: Marcos Duarte, professor de engenharia biomdica da Universidade Federal do ABC e colaborador do Instituto Vita (So Paulo), e Confederao Brasileira de Futebol.


14. HISTRIA  UM CONTO DE DUAS CIDADES
Londres recebe a Olimpada pela terceira vez  sempre com uma crise econmica que se avizinhava ou da qual se tentava sair.
JONAS OLIVEIRA

     A Europa de hoje discute um nico tema: a austeridade econmica. Os Jogos da Austeridade, eis um ttulo adequado  Olimpada de 2012. Estima-se que
o gasto total de organizao seja algo prximo de bilhes de reais.  uma bolada, sim, mas poderia ser muito mais se no houvesse economia na construo das instalaes esportivas. Austeros mesmo foram os Jogos de 1948, os primeiros do ps-guerra. Os atletas britnicos receberam raes dirias de alimentao similar  de estivadores e mineiros. Alguns dos equipamentos utilizados pelos atletas foram emprestados pelos fabricantes; outros foram vendidos depois para ajudar a fechar as contas. Quarenta anos antes, em 1908, Londres tinha abrigado a quarta Olimpada da era moderna na vspera da instabilidade poltica que em 1914 levaria  I Guerra. O Imprio Britnico j havia perdido seu imenso poder. Mas Londres foi britanicamente correta. Sem estardalhao, na pr-histria do esporte como negcio, a cidade deu um jeito de simplificar a organizao da festa, porque uma crise financeira  j?  dava sinais de incmoda apario.

LONDRES 1908
POPULAO: 7,1 milhes
REI: Eduardo VII
PRIMEIRO-MINISTRO: Herbert Henry Asquith
PASES PARTICIPANTES: 22
NMERO DE ATLETAS: Homens  1971; Mulheres  37 
TECNOLOGIA: ltima edio dos Jogos a usar cronometragem exclusivamente manual
LITERATURA: Rudyard Kipling, autor de Mogli  O Menino Lobo, havia vencido o Prmio Nobel de Literatura no ano anterior

UMA FORCINHA PARA DORANDO PIETRI
A maratona de Londres 1908 entrou para a histria por ter sido a primeira a ser disputada em 42.195 metros  a distncia seria adotada como oficial em 1921. O final da prova no foi menos histrico: o italiano Dorando Pietri foi o primeiro a entrar no Estdio White City, mas estava to combalido que s conseguiu cruzar a linha de chegada amparado por dois oficiais. A ajuda resultou em sua desclassificao, e o americano Johnny Hayes acabou herdando o ouro. No dia seguinte, porm, a rainha Alexandra concedeu a Pietri um trofu em reconhecimento a seu esforo e ao esforo dos que o ajudaram.

LONDRES 1948
POPULAO: 8,2 milhes
REI: George VI
PRIMEIRO-MINISTRO: Clement Attlee
PASES PARTICIPANTES: 59
NMERO DE ATLETAS: Homens  3714; Mulheres  390 
TECNOLOGIA: Pela primeira vez utilizou uma cmera para registrar a chegada das provas de atletismo, a Magic Aye
LITERATURA: George Orwell lanara A Revoluo dos Bichos havia trs anos e, em 1949, publicou 1984

BLANKERS-KOEN, A DONA DE CASA VOADORA
Em uma poca em que as mulheres ainda eram imensa minoria no esporte, uma das personagens mais marcantes dos Jogos foi uma atleta. A holandesa Fanny Blankers-Koen, do atletismo, foi a responsvel por quatro dos cinco ouros conquistados pela Holanda. Fanny j havia competido em Berlim 1936, quando tinha apenas 18 anos, mas a interrupo dos Jogos durante a II Guerra Mundial a impediu de buscar o ouro olmpico em 1940 e 1944. Em Londres, ela j tinha 30 anos e era me de duas crianas. Venceu os 100m e 200m rasos, os 80m com barreiras e o revezamento 4x100m, e ficou conhecida como a dona de casa voadora.


15. MEMRIA  OS HERIS  A ELITE DOURADA DO BRASIL
O Brasil conquistou apenas vinte medalhas de ouro em sua histria olmpica   pouco, o que enobrece ainda mais a turma que subiu no lugar mais alto do pdio.

Desde a primeira participao em uma Olimpada, nos Jogos de 1920, o Brasil ganhou apenas vinte medalhas de ouro. Foram onze individuais e nove em esportes coletivos. O lote dourado representa um quinto das 91 medalhas recebidas at hoje: alm das de ouro, foram 25 de prata e 46 de bronze. A modalidade mais vitoriosa  o iatismo, com seis conquistas. Do esporte a vela saram os maiores ganhadores  Marcelo Ferreira, Torben Grael e Robert Scheidt, com duas medalhas cada um. O vlei tambm tem seus bicampees olmpicos, Giovane Gvio e Maurcio Lima. Adhemar Ferreira da Silva fecha a lista do seleto grupo de brasileiros com dois ouros.  uma turma pequena (os Estados Unidos tm 929 ouros), porm heroica.

QUEM E QUEM NA FOTO
1. Marcelo Ferreira (1996 e 2004, iatismo): 
2. Fofo (2008, representando o vlei feminino); 
3. Torben Grael (1996 e 2004, iatismo);
4. Emanuel (2004, vlei de praia); 
5. Lars Bjrkstrm (1980, iatismo); 
6. Eduardo Penido (1980, iatismo): 
7. Alex Welter (1980, iatismo);
8. Rodrigo Pessoa (2004, hipismo); 
9. Cesar Cielo (2008, natao); 
10. Rogrio Sampaio (1992, jud): 
11. Joaquim Cruz (1984, atletismo); 
12. Ricardo (2004, vlei de praia); 
13. Giovane (1992 e 2004, representando o vlei masculino); 
14. Marcos Soares (1980, iatismo); 
15. Carlo (1992, representando o vlei masculino); 
16. Aurlio Miguel (1988, jud); 
17. Adhemar Ferreira da Silva (1952 e 1956, atletismo, falecido em 2001); 
18. Maurren Maggi (2008, atletismo); 
19. Guilherme Paraense (1920, tiro esportivo, falecido em 1968); 
20. Sandra Pires (1996, vlei de praia); 
21. Jackie Silva (1996, vlei de praia); 
22. Robert Scheidt (1996 e 2004, iatismo)


16. ARQUITETURA  A BELEZA POSSVEL PARA DIAS DIFCEIS
Boa parte das instalaes do Parque Olmpico   e aparenta ser  temporria.   a esttica de mos dadas com a racionalidade imposta pela crise econmica
JONAS OLIVEIRA

Se Pequim 2008 no poupou esforos e iuanes para erguer construes de grande impacto visual, em Londres a esttica teve de negociar com as restries impostas pelo oramento e pelas demandas de legado e sustentabilidade ambiental.  O resultado  um Parque Olmpico, na zona leste da sidade, onde muitas das construes so  e aparentam ser  temporrias.  A arquitetura de Londres 2012 flerta com o belo, mas tem os ps firmes no racional.  Alguns dos locais de competio mais vistosos so estruturas que j existiam antes dos Jogos.  As novidades casam a boa arquitetura com o respeito ao ambiente, exigncia determinante para a escolha da capital inglesa como sede da Olimpada.

ESTDIO OLMPICO
Principal obra dos Jogos, o estdio no deve deixar os queixos cados como o Ninho de Pssaro, em Pequim.  Seu design  austero. Durante as competies, ter capacidade para 80.000 pessoas, mas apenas 25.000 lugares so permanentes: os outros 55.000 podero ser removidos pelo novo inquilino, que s ser definido depois da Olimpada.  Seu grande trunfo  a proximidade entre a arquibancada e a pista de atletismo, que deve criar uma boa interao entre os atletas e a torcida.  A obra levou trs anos para ser concluda e custou 486 milhes de libras (1,5 bilho de reais).  Segundo o comit organizador, o estdio possui 10.000 toneladas de ao em sua estrutura  75% menos que em outros estdios do mesmo porte.

ARENA DE BASQUETE
A Arena de Basquete parece camuflar-se em meio s nuvens onipresentes do cu londrino, com sua membrana branca, cheia de formas curvilneas. As nuvens so eternas, mas a arena se vai: a construo  inteiramente temporria, a maior do gnero j erguida para uma edio dos Jogos Olmpicos. Seus 12.000 assentos sero levados para o autdromo de Silverstone e outros complexos esportivos do Reino Unido, e a estrutura, desmontvel, pode ser transferida para outro local. A organizao dos Jogos do Rio de Janeiro j manifestou interesse em aproveit-la em 2016. A arena, cujo custo total foi de 42 milhes de libras (130 milhes de reais), receber as competies de basquete at as quartas de final. Num intervalo de apenas onze horas entre os dias 8 e 12 de agosto, a arena ser transformada para receber as quartas de final, as semifinais e as finais do handebol.

CENTRO AQUTICO
 a construo de visual mais impactante do Parque Olmpico  e tambm a que melhor simboliza o difcil dilogo entre esttica e legado. O projeto da premiada arquiteta Zaha Hadid tem como caracterstica marcante o teto em forma de onda: uma pea nica de 160 metros de comprimento apoiada em apenas trs pilares de concreto, cujo interior  revestido de madeira brasileira. Do lado de fora, a harmonia visual  comprometida por duas asas: so arquibancadas temporrias, que ampliam a capacidade do complexo de 2500 para 17.500 pessoas durante os Jogos. Inicialmente orado em 75 milhes de libras, o Centro Aqutico foi a construo mais demorada e complexa do Parque Olmpico  que envolveu inclusive a descoberta de um stio arqueolgico com quatro esqueletos. O custo final foi de 269 milhes de libras (835 milhes de reais).

QUARTEL DA ARTILHARIA REAL
As provas de tiro sero realizadas em um edifcio originalmente construdo em 1776, na regio sudeste de Londres. O revestimento, de material plstico, misturando o branco com cores fortes, d ao lugar um ar futurista.  quase uma escultura como as que aparecem em grandes mostras de arte moderna.

VELDROMO
Divide com o Centro Aqutico o status de joia do Parque Olmpico. Com projeto assinado pelo escritrio Hopkins Architects,  tido como a obra mais sustentvel do ponto de vista do design e da construo. O exterior  inteiramente revestido de madeira de fontes sustentveis, mas h espaos para ventilao e luz naturais, que reduzem a quantidade de energia necessria para sua operao. O telhado  equipado com um mecanismo para coletar a gua da chuva, que ser reaproveitada nos banheiros e na irrigao dos arredores. Entre os dois anis de arquibancadas, que abrigam 6000 lugares, uma parede de vidro oferece viso de 360 do Parque Olmpico. A pista  feita de pinho siberiano.

ARENA DE HANDEBOL
A arena ganhou um apelido oficial que descreve bem seu aspecto: copper box (caixa de cobre). O design, assinado pelo escritrio Make Architects,  despretensioso, mas cumpre bem sua funo. A fachada  revestida de 3000 metros quadrados de cobre, que dever adquirir outra tonalidade com o processo de oxidao natural ao longo dos anos. A capacidade  para 7000 lugares, mas ser reduzida para 6000 depois dos Jogos, quando o local ser transformado em um ginsio poliesportivo aberto  comunidade. Alm do uso de concreto e cobre reciclados em sua construo, a arena tem uma boa soluo para reduzir o uso de energia em at 40%: o teto  equipado com 88 tubos que direcionam luz natural para a quadra. O custo total foi de 41 milhes de libras (127 milhes de reais).


17. ENTREVISTA  UM LEGADO EXTRAORDINRIO
GABRIELE JIMENEZ
Ganhador de quatro medalhas olmpicas, duas delas de ouro nos 1500 metros (em 1980 e 1984), um dos maiores atletas da histria, o londrino SEBASTIAN COE, 55 anos, adiciona  sua trajetria nas pistas breve passagem pela poltica e o ttulo de lorde. A frente do comit organizador da Olimpada de Londres, Seb, como gosta de ser chamado, trabalha at catorze horas por dia e garante que preparar uma edio dos Jogos Olmpicos  a tarefa mais complexa que qualquer cidade pode assumir.

Que lies o Rio, a sede dos Jogos de 2016, pode aprender com Londres?
Tivemos desde o incio a preocupao de definir claramente no s como amos sediar a Olimpada, mas tambm por que isso era bom para Londres, que legado extraordinrio ela deixaria. Alm disso, pode servir de exemplo o fato de que comeamos a trabalhar muito cedo  as obras do estdio olmpico foram iniciadas em maio de 2008. Foi tambm decisivo o apoio que tivemos de todos os principais partidos polticos, o que ajuda muito em termos de aprovao de projetos e cumprimento de prazos.

Muita coisa pode dar errado, no ? 
A Olimpada  o maior projeto que uma cidade pode receber em circunstncias normais. Organizar simultaneamente 26 campeonatos mundiais  ou 52, se dividirmos entre competies femininas e masculinas  requer muita habilidade. Uma vez apreendida a complexidade do ponto de vista esportivo,  hora de adicionar as questes referentes a transporte, segurana, acomodao. Mesmo assim, considero que tenho um emprego maravilhoso.

A organizao dos Jogos londrinos foi elogiada por entregar as obras no prazo e no estourar o oramento. Como isso foi possvel? 
O comit organizador e o rgo responsvel pelas obras de infraestrutura trabalharam muito prximos  estamos inclusive instalados no mesmo prdio. Para mim, o aspecto decisivo para fazer bem uma Olimpada  trabalhar em parceria, e nossas parcerias tm funcionado muito bem. Neste ltimo ms, estamos todos concentrados nos detalhes que fazem a diferena entre uma boa e uma tima Olimpada. A maioria, claro, diz respeito aos atletas, que so as estrelas do espetculo. Por isso a qualidade da nossa vila olmpica, por exemplo,  excepcional.

O que muda em Londres depois da Olimpada? 
A regio leste da cidade, que estava degradada, dever se recuperar. Haver novas moradias, uma escola, um centro mdico e,  claro, instalaes esportivas de primeira classe, do tipo que Londres nunca teve. Tambm criamos empregos para os moradores da regio nos ltimos quatro ou cinco anos, dando oportunidade para que aperfeioassem suas habilidades. O parque olmpico j foi escolhido para sediar outro campeonato de grande porte, o Mundial de Atletismo de 2017.

A Olimpada de Londres vai ser melhor que as outras? 
Melhor no sei. Vai ser diferente, da mesma forma que Pequim e Barcelona foram diferentes. Quero ter certeza de que aprendemos e absorvemos tudo de melhor das experincias anteriores. E que as pessoas se divirtam muito, porque a Olimpada  uma festa.

Qual ser o grande nome de Londres? 
Uma Olimpada  uma boa chance de atletas menos conhecidos sobressarem. Espero que o grande nome da nossa seja uma surpresa.

